Neste post, inauguro um espaço quinzenal para convidados em nosso boteco, para que possam dividir suas idéias e divulgar seus trabalhos.
Carlos Lopes é um artista único, pelo ecletismo e constante evolução. Em seus mais de 30 anos de carreira, mostrou-se versátil e contestador, exatamente como a arte precisa. Depois de tocar na banda Dorsal Atlântica, de 1981 a 2001, hoje comanda as bandas Mustang e Usina Le Blond, a revista digital O Martelo, e também tem projetos literários.
É com grande honra que o recebemos como nosso primeiro convidado. Espero que gostem do resultado, porque, afinal de contas, o melhor do boteco é o papo.
Carlos, é uma honra para o Papo de Boteco estrear o especial "Papo com o talento" com um músico de tanta personalidade. Gostaria de iniciar perguntando o que mudou na sua relação com a arte nesses 30 anos de carreira?
Essa é fácil: eu mesmo. Toda mudança, toda busca, dependendo dos motivos, é benéfica. Mas o que se passa no coração e mente de cada um de nós, é particular. O externo é uma máscara social. E a arte reflete isso. Toda mudança é benéfica quando advém da compreensão, mais do que da necessidade. Um artista pode criar em função do meio ambiente ou em função de si mesmo. Tudo se resume a uma questão de valores, que só dizem respeito a você, mas como a arte é exportável, o interior do artista se desnuda para o público. A escolha dos nossos favoritos depende da nossa percepção do mundo. Hoje, eu não acompanho vários artistas, que antes eu gostava porque eles não acompanharam o meu estado de espírito. Não sou a mesma pessoa de antes em muitas coisas, graças a Deus.
Quais são os principais desafios e trunfos de um músico independente no Brasil?
Compor e escrever para mim é como respirar. E a grande questão do independente ainda é a falta de espaço para trabalhos autorais. Majoritariamente, as casas se interessam por artistas cover que tem público certo, é como a história do primeiro emprego e da experiência anterior... É um círculo vicioso que nada trás de útil para a música.
Há outro agravante: o público que clama por mudança é o mesmo que alimenta o óbvio, uma coisa aparentemente antagônica; fora a questão do rock no Brasil ainda ser um reduto da classe média para cima, o que limita as possibilidades do estilo. Pobre, pobre mesmo, tocando rock, só vi na época que o punk começou no Brasil, algo bem diferente do que ocorre, por exemplo, na chamada “música popular” como o samba, universo no qual, ainda, a maioria dos músicos vêm das classes C e D. Adoro samba de raiz, mas tenho consciência que isso é típica cultura de branco de classe média, estudioso de música: a “de raiz”.
Certa vez, assisti ao George Clinton do Funkadelic no Rio. Na fila do gargarejo, encontrei o D2 e o Benegão. Nos abraçamos satisfeitos: “É o Clinton! É o Clinton!” O problema é que um pouco depois, me toquei que os mais “moreninhos” naquele público de milhares de pessoas em um show de funk éramos nós três! Não havia dez negros naquela plateia! Sociologia explica?
Muitas coisas não são espontâneas: se o mundo hoje está cheio de independentes e ONGs não é apenas por bons motivos, é claro.
Contra ou a favor da maré, componho, gravo, produzo e distribuo meus discos, com ou sem mercado, com ou sem apoio. Há um ano, tenho gravado demos com versões de clássicos da mpb e tenho escrito várias músicas acústicas com forte inspiração do repente nordestino (http://www.myspace.com/carloslopesmpr). O mercado que se adapte a mim. Minha arte é a minha verdade.
Qual a importância do ecletismo para a evolução de um artista?
A arte reflete a visão do artista, inclusive religiosa, social e política. Dizem que música não deveria se misturar com política, mas quando se canta em inglês não se escolhe apenas divulgar um trabalho no exterior, mas se externaliza uma visão globalizada, muitas vezes submissa da vida. O ecletismo depende do talento de quem cria, depende da verdade das criações, depende de uma soma de talento e percepção. Na minha vida artística e pessoal, se não encontrar novos desafios, eu morro.
A maior parte das suas influências é de músicos das décadas de 60 e 70. É importante se distanciar das influências contemporâneas para criar algo diferente do que todos estão fazendo?
Nos anos 80, eu ouvia pouca coisa das décadas anteriores, porque a produção oitentista era boa o suficiente para que não precisasse fazer isso. A partir de 2000, e entediado, voltei-me aos velhos discos dos meus pais para me redesenhar. Nessa redescoberta, minha percepção se alterou e de certa forma, me senti bobo de ter muita influência estrangeira, isso começou a me incomodar. A maior parte da produção musical atual não me agrada tanto, não por que seja ruim, mas porque não me diz nada. Entre os anos 70 e 80, música alternativa era Devo, The Tubes, Patti Smith, Television, Vanguarda Paulista e de rock brasileiro eu só gostava mesmo do Joelho de Porco, porque além da boa música pesada era uma boa crítica social. O mundo precisa caminhar, tá certo, mas nem sempre a produção atual reflete uma melhoria, compare Madonna com Lady Gaga, sabe... Não dá.
Um jornalista de Salvador ouviu o CD “Santa Fé” do Mustang (http://mustang.mus.br/), no qual ele detectou a influência de música brasileira que descreveu como um estilo próprio chamado de MPR: “música popular roqueira”.
A constante mudança sempre foi a tônica de sua carreira. Como você avalia o artista que prefere o conforto da estagnação e de fórmulas pré-concebidas?
Graças a Deus, tenho o dom da insatisfação artística. Vou te contar uma história curiosa: quando éramos pequenos, minha mãe proibiu que eu e meu irmão tivéssemos animais em casa, pois ela dizia que um dia eles morreriam e que nós sofreríamos. Ela não queria ver isso, ela não queria que conhecêssemos a dor da perda. Fazendo isso, ela não nos educou, não nos disse que todas as escolhas implicam em perdas e ganhos e que opções implicam em alegria e dor, partes inerentes da vida. Não há vida sem dor, como não há artista de verdade sem ousadia. O resto é funcionário público.
Fale um pouco sobre O Martelo, sua revista digital, e de como tem sido a receptividade e o desenvolvimento desse projeto.
Há 5 anos, edito a revista eletrônica O Martelo (http://www.omartelo.com/) sobre cultura, história, artes plásticas, literatura e música, que nasceu por causa da minha insatisfação com a imprensa musical, na qual trabalhei por dez anos. O espaço para mim, por mais que tentasse, estava limitado, e só me queriam como crítico de rock. Olha que loucura, eu achando a maior parte da produção de rock uma bobagem, e tendo que escrever sobre isso. Tive que seguir meu próprio caminho, abrir as portas à força e foi o que fiz. Olhando para trás, vejo que fiz a coisa certa: entrevistei de políticos a escritores, historiadores a artistas populares, escrevi sobre cinema mudo, artes plásticas e filosofia, escrevi sobre samba e música erudita. E para isso tive que estudar, me aprofundar. Certa vez, um conhecido me perguntou por que eu trabalhava tanto sem obter retorno financeiro. “Faço porque amo”, e ele me olhou como se eu fosse um ET. Quem sabe, talvez eu seja mesmo. Esse é o mundo de hoje: prático e óbvio. Não quero isso para mim, nem para o meu pior inimigo. Quero luz, quero arte, quero emoção, sinceridade e entrega. Com três anos de existência, produzi uma versão impressa de O martelo, diagramando e a escrevendo: lancei uma edição especial de O Martelo em papel, distribuída para os leitores com o CD “Santa Fé” do Mustang encartado. Mas o maior prêmio até agora, após esses cinco anos, ocorreu em janeiro de 2011, quando O Martelo recebeu um belo destaque no livro “Almanaque das Redes Sociais Futura” do Canal Futura, como uma das mais destacadas redes sociais de cultura no país. O Martelo foi escolhido pelo seu valor cultural. Essa é a minha resposta.
Você costuma usar as ferramentas de divulgação da Internet, como Myspace, Facebook e outras redes sociais? Acha que a Internet banalizou ou democratizou a arte?
Ambas as assertivas estão corretas, meu caro Watson. Como escrevi antes, tudo depende de quem usa e como usa as ferramentas. Se democratiza ou banaliza, é responsabilidade de cada um. Eu nunca perco meu tempo lendo bobagens, se elas têm mais público não é um problema meu. Um dos blogs que escrevo é sobre o fenômeno da sincronicidade, assim como Jung chamou a “coincidência criativa”. (http://sincronicidademagica.wordpress.com/). Se ser popular com ofensas a etnias, sexismo e escolhas sexuais diferentes é a escolha da maioria, me desculpe, mas estou fora. Minha opção de vida é pela arte, cultura e espiritualidade, nada normal, não é?
Qual a sua relação com o cinema? Há alguma referência visual ou sonora que inspira sua arte?
Certamente, muitas letras que escrevi nasceram de livros e filmes, mais do que da inspiração em letras de outros autores. Sou particularmente apaixonado por cinema mudo, que é uma viagem. Também sou apaixonado pelas Chanchadas da Atlântida, Oscarito e Grande Otelo, por pintores e artistas plásticos, pelo Cinema Novo, Glauber; Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra, assim como me delicio com meu amado Machado de Assis. Tudo isso influenciou minha escrita, assim como as óperas rock como The Wall e Tommy.
Você escreveu um livro, "O Segredo J". Sobre o que ele trata e como foi a experiência de se expressar fora da música?
Durante 5 anos, pesquisei a morte de políticos como Juscelino Kubistchek e músicos de rock como Hendrix, Joplin e Morrison. Em todos os casos, ficou claro para mim que houve uma conspiração internacional, que envolve o governo americano e a Operação Condor, criada pelas ditaduras latino-americanas. Por incrível que pareça, todos os nomes dos envolvidos começavam com a letra J, o que gerou o nome deste livro: O Segredo J. A pesquisa comprovou que todos os casos se relacionavam. Eu mesmo fiquei surpreso com o que descobri, como por exemplo que Marc Chapman não matou John Lennon.
Em 2011, serão lançados 3 livros meus, incluindo O Segredo J, relançado e ampliado com mais dados, juntamente com o lançamento do meu novo livro sobre sincronicidades, uma extensão pormenorizada do blog que escrevo (http://sincronicidademagica.wordpress.com/).

Voltando à música, como você avalia a primeira década de sua banda atual, Mustang?
O Mustang foi criado em 2000, juntamente com a Usina Leblond (http://www.clnetsys.com/usinaleblond/), para resgatar o prazer de fazer música que eu havia perdido. A primeira nasceu para misturar rock clássico com punk e psicodelia; a segunda para fundir mpb com jazz e rock. Cresci como músico e produtor com ambas, o processo de aprendizado foi e é uma constante. O - ou A - Mustang gravou 5 discos em dez anos, sempre caminhando para uma sonoridade própria. Como artista isso é motivo de orgulho, para o mercado talvez seja burrice. Eu sou livre e prefiro continuar livre.
Fale um pouco sobre o conceito de "Santa Fé". Qual o conceito da obra? De onde surgiu a inspiração de escrevê-la?
Esse CD é um desabafo em forma de ópera rock, que cobre um período que envolve a morte da minha mãe e fala sobre as pessoas que me cercavam, consumidoras de drogas e falsos “amigos”. Acreditei que a sinceridade e o amor pudessem levar todos à compreensão e à luz, mas cada um tem seu tempo e mentiras, goste-se ou não, fazem parte dos relacionamentos sociais. Certamente, não estávamos preparados: nem eu para descer tanto e nem eles para crescer. E toda “queda” te leva a questionamentos, reflexões. Exteriorizo meus conflitos e falo sobre buscas pessoais e espirituais através da arte, pois afinal de contas, o que não te destrói te fortalece: essa é a santa fé.
E quanto ao Usina Le Blond? Como sua banda principal e seu projeto paralelo se complementam para você?
Na verdade, atualmente optei por somar as duas bandas, a Usina e o Mustang, o que gerou um “híbrido” musical, no qual punk e soul convivem na boa com mpb, country e rock pesado, sem dilemas.
O conceito do nosso site, além de trazer notícias sobre variedades, passa por reunir idéias dos seus 4 autores, como se estivessem conversando informalmente em um bar. O quê você costuma fazer em seus momentos de lazer?
Se eu contar você acredita? Adoro documentários, amo ler e escrever. Pelo menos uma ou duas vezes por mês, fico horas na praia, amo o mar (gosto mais do que montanhas) e adoro meditar em igrejas e meditar andando. Não gosto de barulho ou tumultos da rua. Essa é basicamente a minha vida.
Você é um cara que se interessa por política? Qual a sua opinião sobre a conjuntura política brasileira? O quê mudou e o quê nunca vai mudar?
Sou de esquerda, mas isso não quer dizer que a esquerda sempre acerte. Humanos são humanos e nada do que é humano me surpreende. Há uma tendência a falarmos que “nada vai mudar”, mas por que pensamos assim se esperamos o melhor para nós? Por que fazemos isso? Falar que a culpa é do “sistema” é infantil, pois o sistema somos nós, com todas as qualidades e defeitos. Não há o outro, há nós.
Muito obrigado pela entrevista com o Papo de Boteco, Carlos. Pra terminar: na vida, o que te faz pedir mais uma "saideira"?
Hummmm... amor pelo que se faz e é claro, repartir amor. Para isso eu peço “mil” saideiras!
Carlos Lopes
http://www.omartelo.com
http://www.omartelo.com/blog
http://www.oinovosom.com.br/portal/blog
http://www.oinovosom.com.br/carloslopes
http://oinovosom.com.br/mustang
http://www.mustang.mus.br

Carlos Lopes é um artista único, pelo ecletismo e constante evolução. Em seus mais de 30 anos de carreira, mostrou-se versátil e contestador, exatamente como a arte precisa. Depois de tocar na banda Dorsal Atlântica, de 1981 a 2001, hoje comanda as bandas Mustang e Usina Le Blond, a revista digital O Martelo, e também tem projetos literários.
É com grande honra que o recebemos como nosso primeiro convidado. Espero que gostem do resultado, porque, afinal de contas, o melhor do boteco é o papo.
Carlos, é uma honra para o Papo de Boteco estrear o especial "Papo com o talento" com um músico de tanta personalidade. Gostaria de iniciar perguntando o que mudou na sua relação com a arte nesses 30 anos de carreira?Essa é fácil: eu mesmo. Toda mudança, toda busca, dependendo dos motivos, é benéfica. Mas o que se passa no coração e mente de cada um de nós, é particular. O externo é uma máscara social. E a arte reflete isso. Toda mudança é benéfica quando advém da compreensão, mais do que da necessidade. Um artista pode criar em função do meio ambiente ou em função de si mesmo. Tudo se resume a uma questão de valores, que só dizem respeito a você, mas como a arte é exportável, o interior do artista se desnuda para o público. A escolha dos nossos favoritos depende da nossa percepção do mundo. Hoje, eu não acompanho vários artistas, que antes eu gostava porque eles não acompanharam o meu estado de espírito. Não sou a mesma pessoa de antes em muitas coisas, graças a Deus.
Quais são os principais desafios e trunfos de um músico independente no Brasil?
Compor e escrever para mim é como respirar. E a grande questão do independente ainda é a falta de espaço para trabalhos autorais. Majoritariamente, as casas se interessam por artistas cover que tem público certo, é como a história do primeiro emprego e da experiência anterior... É um círculo vicioso que nada trás de útil para a música.
Há outro agravante: o público que clama por mudança é o mesmo que alimenta o óbvio, uma coisa aparentemente antagônica; fora a questão do rock no Brasil ainda ser um reduto da classe média para cima, o que limita as possibilidades do estilo. Pobre, pobre mesmo, tocando rock, só vi na época que o punk começou no Brasil, algo bem diferente do que ocorre, por exemplo, na chamada “música popular” como o samba, universo no qual, ainda, a maioria dos músicos vêm das classes C e D. Adoro samba de raiz, mas tenho consciência que isso é típica cultura de branco de classe média, estudioso de música: a “de raiz”.
Certa vez, assisti ao George Clinton do Funkadelic no Rio. Na fila do gargarejo, encontrei o D2 e o Benegão. Nos abraçamos satisfeitos: “É o Clinton! É o Clinton!” O problema é que um pouco depois, me toquei que os mais “moreninhos” naquele público de milhares de pessoas em um show de funk éramos nós três! Não havia dez negros naquela plateia! Sociologia explica?
Muitas coisas não são espontâneas: se o mundo hoje está cheio de independentes e ONGs não é apenas por bons motivos, é claro.
Contra ou a favor da maré, componho, gravo, produzo e distribuo meus discos, com ou sem mercado, com ou sem apoio. Há um ano, tenho gravado demos com versões de clássicos da mpb e tenho escrito várias músicas acústicas com forte inspiração do repente nordestino (http://www.myspace.com/carloslopesmpr). O mercado que se adapte a mim. Minha arte é a minha verdade.
Qual a importância do ecletismo para a evolução de um artista?
A arte reflete a visão do artista, inclusive religiosa, social e política. Dizem que música não deveria se misturar com política, mas quando se canta em inglês não se escolhe apenas divulgar um trabalho no exterior, mas se externaliza uma visão globalizada, muitas vezes submissa da vida. O ecletismo depende do talento de quem cria, depende da verdade das criações, depende de uma soma de talento e percepção. Na minha vida artística e pessoal, se não encontrar novos desafios, eu morro.
A maior parte das suas influências é de músicos das décadas de 60 e 70. É importante se distanciar das influências contemporâneas para criar algo diferente do que todos estão fazendo?
Nos anos 80, eu ouvia pouca coisa das décadas anteriores, porque a produção oitentista era boa o suficiente para que não precisasse fazer isso. A partir de 2000, e entediado, voltei-me aos velhos discos dos meus pais para me redesenhar. Nessa redescoberta, minha percepção se alterou e de certa forma, me senti bobo de ter muita influência estrangeira, isso começou a me incomodar. A maior parte da produção musical atual não me agrada tanto, não por que seja ruim, mas porque não me diz nada. Entre os anos 70 e 80, música alternativa era Devo, The Tubes, Patti Smith, Television, Vanguarda Paulista e de rock brasileiro eu só gostava mesmo do Joelho de Porco, porque além da boa música pesada era uma boa crítica social. O mundo precisa caminhar, tá certo, mas nem sempre a produção atual reflete uma melhoria, compare Madonna com Lady Gaga, sabe... Não dá.
Um jornalista de Salvador ouviu o CD “Santa Fé” do Mustang (http://mustang.mus.br/), no qual ele detectou a influência de música brasileira que descreveu como um estilo próprio chamado de MPR: “música popular roqueira”.
A constante mudança sempre foi a tônica de sua carreira. Como você avalia o artista que prefere o conforto da estagnação e de fórmulas pré-concebidas?
Graças a Deus, tenho o dom da insatisfação artística. Vou te contar uma história curiosa: quando éramos pequenos, minha mãe proibiu que eu e meu irmão tivéssemos animais em casa, pois ela dizia que um dia eles morreriam e que nós sofreríamos. Ela não queria ver isso, ela não queria que conhecêssemos a dor da perda. Fazendo isso, ela não nos educou, não nos disse que todas as escolhas implicam em perdas e ganhos e que opções implicam em alegria e dor, partes inerentes da vida. Não há vida sem dor, como não há artista de verdade sem ousadia. O resto é funcionário público.
Fale um pouco sobre O Martelo, sua revista digital, e de como tem sido a receptividade e o desenvolvimento desse projeto.Há 5 anos, edito a revista eletrônica O Martelo (http://www.omartelo.com/) sobre cultura, história, artes plásticas, literatura e música, que nasceu por causa da minha insatisfação com a imprensa musical, na qual trabalhei por dez anos. O espaço para mim, por mais que tentasse, estava limitado, e só me queriam como crítico de rock. Olha que loucura, eu achando a maior parte da produção de rock uma bobagem, e tendo que escrever sobre isso. Tive que seguir meu próprio caminho, abrir as portas à força e foi o que fiz. Olhando para trás, vejo que fiz a coisa certa: entrevistei de políticos a escritores, historiadores a artistas populares, escrevi sobre cinema mudo, artes plásticas e filosofia, escrevi sobre samba e música erudita. E para isso tive que estudar, me aprofundar. Certa vez, um conhecido me perguntou por que eu trabalhava tanto sem obter retorno financeiro. “Faço porque amo”, e ele me olhou como se eu fosse um ET. Quem sabe, talvez eu seja mesmo. Esse é o mundo de hoje: prático e óbvio. Não quero isso para mim, nem para o meu pior inimigo. Quero luz, quero arte, quero emoção, sinceridade e entrega. Com três anos de existência, produzi uma versão impressa de O martelo, diagramando e a escrevendo: lancei uma edição especial de O Martelo em papel, distribuída para os leitores com o CD “Santa Fé” do Mustang encartado. Mas o maior prêmio até agora, após esses cinco anos, ocorreu em janeiro de 2011, quando O Martelo recebeu um belo destaque no livro “Almanaque das Redes Sociais Futura” do Canal Futura, como uma das mais destacadas redes sociais de cultura no país. O Martelo foi escolhido pelo seu valor cultural. Essa é a minha resposta.
Você costuma usar as ferramentas de divulgação da Internet, como Myspace, Facebook e outras redes sociais? Acha que a Internet banalizou ou democratizou a arte?
Ambas as assertivas estão corretas, meu caro Watson. Como escrevi antes, tudo depende de quem usa e como usa as ferramentas. Se democratiza ou banaliza, é responsabilidade de cada um. Eu nunca perco meu tempo lendo bobagens, se elas têm mais público não é um problema meu. Um dos blogs que escrevo é sobre o fenômeno da sincronicidade, assim como Jung chamou a “coincidência criativa”. (http://sincronicidademagica.wordpress.com/). Se ser popular com ofensas a etnias, sexismo e escolhas sexuais diferentes é a escolha da maioria, me desculpe, mas estou fora. Minha opção de vida é pela arte, cultura e espiritualidade, nada normal, não é?
Qual a sua relação com o cinema? Há alguma referência visual ou sonora que inspira sua arte?
Certamente, muitas letras que escrevi nasceram de livros e filmes, mais do que da inspiração em letras de outros autores. Sou particularmente apaixonado por cinema mudo, que é uma viagem. Também sou apaixonado pelas Chanchadas da Atlântida, Oscarito e Grande Otelo, por pintores e artistas plásticos, pelo Cinema Novo, Glauber; Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra, assim como me delicio com meu amado Machado de Assis. Tudo isso influenciou minha escrita, assim como as óperas rock como The Wall e Tommy.
Você escreveu um livro, "O Segredo J". Sobre o que ele trata e como foi a experiência de se expressar fora da música?
Durante 5 anos, pesquisei a morte de políticos como Juscelino Kubistchek e músicos de rock como Hendrix, Joplin e Morrison. Em todos os casos, ficou claro para mim que houve uma conspiração internacional, que envolve o governo americano e a Operação Condor, criada pelas ditaduras latino-americanas. Por incrível que pareça, todos os nomes dos envolvidos começavam com a letra J, o que gerou o nome deste livro: O Segredo J. A pesquisa comprovou que todos os casos se relacionavam. Eu mesmo fiquei surpreso com o que descobri, como por exemplo que Marc Chapman não matou John Lennon.
Em 2011, serão lançados 3 livros meus, incluindo O Segredo J, relançado e ampliado com mais dados, juntamente com o lançamento do meu novo livro sobre sincronicidades, uma extensão pormenorizada do blog que escrevo (http://sincronicidademagica.wordpress.com/).

Voltando à música, como você avalia a primeira década de sua banda atual, Mustang?
O Mustang foi criado em 2000, juntamente com a Usina Leblond (http://www.clnetsys.com/usinaleblond/), para resgatar o prazer de fazer música que eu havia perdido. A primeira nasceu para misturar rock clássico com punk e psicodelia; a segunda para fundir mpb com jazz e rock. Cresci como músico e produtor com ambas, o processo de aprendizado foi e é uma constante. O - ou A - Mustang gravou 5 discos em dez anos, sempre caminhando para uma sonoridade própria. Como artista isso é motivo de orgulho, para o mercado talvez seja burrice. Eu sou livre e prefiro continuar livre.
Fale um pouco sobre o conceito de "Santa Fé". Qual o conceito da obra? De onde surgiu a inspiração de escrevê-la?
Esse CD é um desabafo em forma de ópera rock, que cobre um período que envolve a morte da minha mãe e fala sobre as pessoas que me cercavam, consumidoras de drogas e falsos “amigos”. Acreditei que a sinceridade e o amor pudessem levar todos à compreensão e à luz, mas cada um tem seu tempo e mentiras, goste-se ou não, fazem parte dos relacionamentos sociais. Certamente, não estávamos preparados: nem eu para descer tanto e nem eles para crescer. E toda “queda” te leva a questionamentos, reflexões. Exteriorizo meus conflitos e falo sobre buscas pessoais e espirituais através da arte, pois afinal de contas, o que não te destrói te fortalece: essa é a santa fé.
E quanto ao Usina Le Blond? Como sua banda principal e seu projeto paralelo se complementam para você?
Na verdade, atualmente optei por somar as duas bandas, a Usina e o Mustang, o que gerou um “híbrido” musical, no qual punk e soul convivem na boa com mpb, country e rock pesado, sem dilemas.
O conceito do nosso site, além de trazer notícias sobre variedades, passa por reunir idéias dos seus 4 autores, como se estivessem conversando informalmente em um bar. O quê você costuma fazer em seus momentos de lazer?
Se eu contar você acredita? Adoro documentários, amo ler e escrever. Pelo menos uma ou duas vezes por mês, fico horas na praia, amo o mar (gosto mais do que montanhas) e adoro meditar em igrejas e meditar andando. Não gosto de barulho ou tumultos da rua. Essa é basicamente a minha vida.
Você é um cara que se interessa por política? Qual a sua opinião sobre a conjuntura política brasileira? O quê mudou e o quê nunca vai mudar?
Sou de esquerda, mas isso não quer dizer que a esquerda sempre acerte. Humanos são humanos e nada do que é humano me surpreende. Há uma tendência a falarmos que “nada vai mudar”, mas por que pensamos assim se esperamos o melhor para nós? Por que fazemos isso? Falar que a culpa é do “sistema” é infantil, pois o sistema somos nós, com todas as qualidades e defeitos. Não há o outro, há nós.
Muito obrigado pela entrevista com o Papo de Boteco, Carlos. Pra terminar: na vida, o que te faz pedir mais uma "saideira"?
Hummmm... amor pelo que se faz e é claro, repartir amor. Para isso eu peço “mil” saideiras!
Carlos Lopes
http://www.omartelo.com
http://www.omartelo.com/blog
http://www.oinovosom.com.br/portal/blog
http://www.oinovosom.com.br/carloslopes
http://oinovosom.com.br/mustang
http://www.mustang.mus.br

Entrevista muito bacana. Carlos é muito inteligente e sabe o que diz. Parabéns!
ResponderExcluirParabéns Carlos, o reconhecimento de seu talento é merecido!
ResponderExcluirCarlos é um ser humano maravilhoso e um grande artista.
ResponderExcluirExcelente entrevista. Parabéns.